Carta a Vinicius Junior, de Preto Zezé – 23/05/2023 – Esporte

Carta a Vinicius Junior, de Preto Zezé – 23/05/2023 – Esporte


Irmão, primeiro queria estar com você agora para te abraçar, te oferecer meu ombro para servir de comporta para desaguar suas lágrimas.

Você é grande e imponente, não somente pelo que é hoje, mas pelas barreiras e superações que você fez desde as ruas de terra de São Gonçalo. Lá, você já era ídolo da sua mãe, da sua família e das pessoas que te amam e sempre estiveram com você.

No último domingo (21), te fizeram chorar. E eu já senti esse choro, esse nó na garganta, essa raiva e esse ímpeto de pular a cerca e encher os racistas de porrada. Você não tem que se desculpar por isso, está sendo humano. E não deixando o silêncio esmagar sua revolta, que jorra dos seus olhos e molha seu rosto e o meu neste momento que te escrevo.

Desde que vi o vídeo, fiquei triste, pra baixo. Sim, por mais guerreiro que sejamos, guerreiros são pessoas. E nossas mães falavam que não tínhamos que nos humilhar para ninguém. Dona Fátima dizia que, se apanha na rua, apanha em casa também. Me recuperei para poder te escrever hoje e te dizer que me sinto com você, pra rir e pra chorar.

As lágrimas, irmão, não escondem nossa força. Elas revelam que, mesmo diante de tanta brutalidade, nossa humanidade corre contra as margens que tentam nos oprimir, buscando transformar nossa reação em culpa, nossa autodefesa em violência.

Eu aprendi com o rap a controlar meu ódio. Mais ainda: a transformar minha revolta em ação política (não essa política que muitos dizem odiar), política no sentindo de afirmar nossa vida, de proteger nossa reputação, de agir em defesa dos pares, de ampliar nossa causa particular para uma coletividade bem maior.

Essas lágrimas te farão mais forte, mas não deixe que a violência te capture, que a areia movediça da vingança te sequestre, seduza e, depois, te afogue.

Hoje muita gente preta, de vários tons, sotaques, dialetos e idiomas se somam com você.

Eles, os racistas, na verdade, temem que o Vinicius Junior, que amassa zagueiros, amasse o racismo fora de campo.

Eles querem forçar nossas lágrimas para sufocar a beleza do nosso sorriso, que, por muito tempo, nos fizeram ter vergonha e nos achar feios, produzindo auto-ódio e vergonha.

Eles se desesperam em saber que você tá driblando a zaga do preconceito antes, durante e depois dos jogos. Eles estão sem saber o que fazer e acham que descobriram um caminho para te pôr medo, para te tirar do foco.

Neste final de semana, vamos ter a Taça das Favelas. E teremos placa em sua homenagem. Não por isso, mas para eles saberem que o time do Vini Jr tem torcida no mundo todo, que na arquibancada estão pais, mães, amigos, parentes e pessoas que se inspiram e te querem bem.

Vamos lutar pra transformar esse momento de dor e ódio em resultados para que os valores mudem. Só prender e punir os racistas é pouco, temos que dissolver e mudar valores na sociedade para derrotar o racismo. Conta comigo, irmão. E saiba que, dentro e fora do campo, pelas ruas de terra onde fazemos brotar sonhos, você está estufando a rede da esperança e levando gols para vida de garotas e garotos iguais a você.

Na vida, sempre fomos ensinados que tínhamos que fazer mais, tirar mais que 10 mesmo estando dezenas de vezes atrasados. Você mudou a regra, instalou a dança onde tinha um futebol frio e careta, derramou elegância nas passarelas verdes dos gramados do mundo, onde cara feia e força bruta sucumbiram ao gingado do menino preto de São Gonçalo.

Amanhã compro a camisa do Vini Jr. e dou para José, meu filho, o Pandinha. E vou levá-lo ao jogo do Fortaleza, para aumentar o desespero dos racistas. Mas, principalmente, para dizer que, com isso, eles não vão parar o Vinicius.

Pelo contrário!

Faremos dessa omissão do VAR racista, da indústria do futebol, o gás para voltar no segundo tempo e virar o jogo.

O futebol podia criar vergonha na cara e, a partir disso, mudar regras, estabelecer limites, fazer das punições regulamentos prementes para que isso pare de acontecer. Estejamos cada vez mais preparados.

Os clubes serão forçados a refletir como é importante respeitar a diversidade, em particular a racial. Imagina-se o futebol sem nós, pretos?

Somos nós que lotamos estádios, batemos recordes de bilheteria e fazemos o show. Nada mais justo que exista um equilíbrio e respeito a quem faz a máquina girar.

Os legisladores podiam elaborar leis que não somente se baseassem em punir, mas produzir mais oportunidades para os milhões de Vinicius espalhados pelo mundo.

Sei que, daqui a alguns dias, quando a imprensa sair de cima, as redes se ocuparem com novas pautas e os algoritmos se agarrarem a novos hypes, talvez isso esfrie. Mas eu não vou esquecer disso, como nunca esqueci do dia que me descobri preto, aos 15 anos de idade, e descobri como tudo se forma e opera negativamente ao nosso redor.

Te desejo paz, saúde, descanso mental. E conta sempre conosco.

Beijos no seu coração, menino lindo e mágico.

Eu tô na arquibancada te olhando, torcendo, te amando. Eu sou Vinicius Jr Futebol Clube. Te Amo!



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