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Dez anos após a Copa, Beira-Rio enfrenta danos de enchente – 22/06/2024 – Esporte


No dia 15 de junho de 2014, 43.012 pessoas encheram o estádio Beira-Rio para assistir a França x Honduras. A partida, que terminou com vitória francesa por 3 a 0, deu a largada à Copa do Mundo em Porto Alegre, na reformada casa do Sport Club Internacional.

Nos dias seguintes, passaram pela capital gaúcha mais sete seleções, entre elas as finalistas Alemanha e Argentina. O estádio do Internacional foi palco de quatro jogos da fase de grupos e um das oitavas de final.

Dez anos depois, as arquibancadas estão vazias, e quem frequenta o Beira-Rio está no local para um trabalho de faxina ou de contabilidade de danos. O estádio está fechado há mais de um mês após ter sido inundado pelas águas do lago Guaíba.

A enchente comprometeu a área de competição, onde se encontram os vestiários dos jogadores e da arbitragem, a operação de equipamentos de VAR e as cadeiras mais baixas. No mesmo campo em que Lionel Messi, Karim Benzema e Toni Kroos brilharam durante a Copa, a água atingiu 60 centímetros e destruiu o gramado, que vem sendo replantado.

Em outras áreas, a água chegou a 1,2 metro de altura, alcançando o segundo degrau da arquibancada inferior. O estádio fica em uma área de aterro no bairro Praia de Belas, um dos mais afetados pela enchente em Porto Alegre.

A primeira estimativa indicava um prejuízo de R$ 35 milhões no Beira-Rio e do CT Parque Gigante, mas o valor deve subir à medida que o clube calcula os impactos.

De acordo com o presidente do Internacional, Alessandro Barcellos, o tempo para a recuperação de todas áreas atingidas pode chegar a 60 dias. A retirada de materiais estragados e desinfecção do estádio deve ser concluída no começo de julho. O plano é que o espaço volte a receber partidas em algum momento de julho.

“Nosso principal gargalo sem dúvida nenhuma é TI [tecnologia da informação]. Infra, rede, internet, cabeamento”, disse Victor Grunberg, um dos vice-presidentes do Inter, lembrando que a área tecnológica fica no primeiro pavimento e foi alagada. “A gente está descobrindo aos poucos o material que foi perdido e fazendo o restabelecimento.”

Segundo o presidente, o comitê de crise do time tem reuniões diárias para definir as medidas de recuperação do estádio. Inevitavelmente, a reconstrução do Beira-Rio vai onerar os cofres do clube. “Vai ter um impacto no caixa, nós vamos precisar disponibilizar recursos.”

A situação do centro de treinamento Parque Gigante, do outro lado da avenida Edvaldo Pereira Paiva, é ainda pior. A primeira fase de limpeza removeu cerca de 50 toneladas de entulho, e a previsão é que as atividades sejam retomadas em cerca de 90 dias.

No caso do centro de treinamento, o dano se deu diretamente pela elevação do nível do Guaíba. No estádio, a origem está em bueiros e bocas de lobo. A avenida Edvaldo Pereira Paiva, que separa o Beira-Rio da orla do Guaíba, funcionou como uma espécie de dique.

“A água que inundou o Beira-Rio foi fruto do desligamento das bombas na cidade“, afirmou o presidente. “Portanto, no Beira-Rio nós precisamos de uma solução estrutural da cidade para que as bombas não parem de funcionar, porque senão a cidade vai, do lado de cá, alagar sempre.”

A reconstrução do Beira-Rio, ainda assim, é bem diferente da remodelagem pela qual passou o estádio para a Copa do Mundo de 2014, mais cara. Em valores corrigidos pela inflação, a obra para o Mundial custou R$ 460 milhões —como a arena não foi construído do zero, foi a mais barata entre as sedes da Copa.

Já que a obra no Beira-Rio não tinha envolvimento direto do município, a capital gaúcha buscou verba para aprimorar o entorno do Beira-Rio, como o alargamento e a implantação do corredor de ônibus da avenida Padre Cacique e as obras do viaduto Abdias do Nascimento.

“Como Porto Alegre tinha um estádio privado, a administração trabalhou para que houvesse, entre aspas, uma compensação, em termos de investimentos”, disse Rogério Baú, secretário adjunto de obras e infraestrutura de Porto Alegre.

Segundo Baú, essa compensação envolveu “outras obras importantes para a cidade, mas que não tinham relação direta com a Copa do Mundo”. Grande parte das chamadas “obras da Copa”, diferentemente das reformas no entorno do Beira-Rio, só foram entregues depois do evento —a duplicação da avenida Tronco foi concluída em abril deste ano, por exemplo.

Apesar dos atrasos dessas obras, Baú apontou que todas as obras no entorno do Beira-Rio foram entregues no prazo e que não houve problemas de locomoção ao redor do estádio.

Para ele, eventos como a Fan Fest, que atraíram mais de 430 mil pessoas, e o Caminho do Gol, que transformou a avenida Borges de Medeiros em um corredor de torcedores e foi elogiado pela Fifa (Federação Internacional de Futebol), indicam que a cidade tem o potencial para receber novas festas e se reerguer.

Isso será posto à prova em 2027, quando o Beira-Rio será um dos dez estádios a abrigar jogos da Copa do Mundo feminina. “Talvez a gente tenha uma rememoração do que foi naquele período”, disse Baú.

Enquanto a Copa do Mundo feminina é um futuro mais ou menos distante, o Inter enfrenta o presente sombrio pós-enchente do Beira-Rio contando com o engajamento do torcedor apaixonado

“O Beira Rio é um estádio que tem alma, que foi reformulado para a Copa do Mundo, mas nunca perdeu a sua essência”, disse o presidente Barcellos

Em 1967, quando a construção do Beira-Rio foi ameaçada pela falta de verba, foi lançada uma campanha de doação de tijolos para erguer o estádio. Não há previsão de campanha semelhante, mas Barcellos acredita que os colorados apoiarão o clube para reerguê-lo.

“O torcedor não perde essa relação [com o estádio], tanto é que bateu os recordes de público depois da reinauguração e recordes de sócios”, afirmou o dirigente.

“A partir do momento que nós tivermos um diagnóstico mais correto e mais completo do que será o plano de reconstrução das nossas áreas, nós também vamos trabalhar com aqueles colorados que possam contribuir, como sempre foi a história do Internacional.”



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