Projeto apoiado pelo MPT beneficia produtores rurais da região de Boqueirão de Piranhas, em Cajazeiras

Projeto apoiado pelo MPT beneficia produtores rurais da região de Boqueirão de Piranhas, em Cajazeiras


“Mudou bastante nossa vida aqui. Antes, a gente não tinha um ganho a mais. As frutas agora não são mais desperdiçadas. Eu e outras pessoas daqui vendemos para a Associação. Conheço gente da nossa comunidade que traz cajá, cajarana, acerola, goiaba, manga, caju e faz uma renda aqui de R$ 5 mil, 6 mil. Pra gente que é trabalhador pequeno e vive da roça não tem nem palavras para agradecer. Essa parceria chegou em boa hora!”, comemora o agricultor Francisco Vieira de Carvalho, 73 anos, que está sendo beneficiado, com cerca de 80 famílias, com o projeto de otimização da produção de polpas de frutas na Associação dos Produtores Rurais da Região de Boqueirão de Cajazeiras, no Sertão paraibano, e que conta com o apoio do Ministério Público do Trabalho na Paraíba (MPT-PB).

O MPT-PB destinou R$ 243 mil para o “Projeto Otimização da Produção de Polpa, Aproveitamento de Resíduos e Avaliação da Capacidade Antimicrobiana do Cajá, que contempla a “Associação dos Produtores Rurais de Boqueirão”, localizada no Sítio Coxos, a cerca de 20 quilômetros do município de Cajazeiras, juntamente com a criação do “Laboratório de Produtos Naturais da Caatinga”. A Associação e o Laboratório atuarão em conjunto para melhorar a vida dos trabalhadores, a qualidade dos alimentos e a renda de famílias em comunidades rurais de sítios dessa região, no Sertão paraibano. Este projeto está alinhado com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, das Nações Unidas – ONU, desafios para acabar com a pobreza e a fome, promover trabalho decente, saúde, educação e crescimento econômico sustentável.

O projeto que recebeu destinação de recursos feita pelo MPT inclui a instalação de painéis fotovoltaicos no telhado da Associação, para produção de energia solar, o que gerou uma economia de 97%. “Antes, nossa conta dava em torno de R$ 3 mil. Era como se a gente tivesse se afogando em um poço sem fundo. Com a energia renovável, hoje pagamos uma taxa de R$ 7. Este ano, produzimos aproximadamente 61 toneladas de polpas e, a partir de agora, vamos poder comprar mais dos produtores locais e armazenar mais frutas. Então, essa ajuda veio fortalecer a nossa produção e a comunidade em si”, revelou José da Silva Vieira, presidente da Associação dos Produtores Rurais da Região de Boqueirão de Cajazeiras, que recebeu equipamentos modernos.

“Esse novo equipamento – a ‘envasadora’- veio dar celeridade e qualidade à produção. Antes, nós trabalhávamos arduamente o dia inteiro, 12 horas consecutivas, para fazer 600 a 800 quilos de polpa. E hoje, com esse equipamento, podemos produzir mil quilos por hora. Além de nos dar mais liberdade, conforto e economia no trabalho, também veio dar mais qualidade na polpa, porque ela vai demorar menos tempo para ser embalada. A polpa já sai pesada, com data de fabricação, validade e lote, e já vai direto para a câmara fria num tempo bem menor, dando mais qualidade ao nosso produto”, explicou José da Silva Vieira.

O projeto de melhoria da “Associação dos Produtores Rurais de Boqueirão”, no Sítio Coxos e o “Laboratório de Produtos Naturais da Caatinga” – que estuda a produção de farinha, farelo animal e canudo comestível feitos com caroços do cajá – foram inaugurados em Cajazeiras, na última terça-feira (31/10). A Associação está fornecendo os resíduos da produção da polpa do cajá (caroços e cascas) para os estudos do Laboratório, localizado no campus da Faculdade Santa Maria. Os projetos são desenvolvidos pelo Instituto Maria José Batista Lacerda (IMJOB) com o apoio do MPT-PB.

“Antes, as frutas se perdiam, jogava fora porque não tinha quem comprasse. A gente passava muita dificuldade, mas não tinha pra quem vender. Depois desse negócio aqui, na Associação, melhorou 100% porque agora a gente tem um dinheirinho extra. Foi um bom negócio!”, revela a agricultora Samara Alexandre da Silva, moradora do Sítio Vaca Morta, uma das produtoras que está fornecendo frutas para a Associação dos Produtores Rurais de Boqueirão de Cajazeiras.

Olhar social e sustentável

“Este projeto está dentro do olhar social do Ministério Público do Trabalho e alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, no sentido de melhorar a vida dos trabalhadores e aproveitar as vocações e potencialidades da Região Nordeste, especificamente do Sertão da Paraíba. Há inovação e ineditismo nessas pesquisas na área da produção de alimentos, na área de fármacos e na área de ração animal. Então, é importante essa parceria porque está em questão a dignidade desses trabalhadores, futuramente de outros trabalhadores que serão beneficiados em outras vertentes da pesquisa e tudo isso alinhado com o desenvolvimento sustentável da região”, destacou o procurador do Trabalho Paulo Germano Costa de Arruda, que fez a destinação dos recursos para o projeto, que contempla a Associação e a criação do Laboratório, inaugurado na terça-feira (31/10).

“Já são 26 associados cadastrados na Associação e mais de 80 famílias beneficiadas, indiretamente toda uma cadeia produtiva está se movimentando com o aproveitamento de frutas e, no futuro, o aproveitamento de outros subprodutos do cajá e de outras frutas, para a fabricação de uma farinha para alimento humano e ração animal”, acrescentou o procurador.

“A jornada de trabalho dos associados na associação foi reduzida devido ao incremento tecnológico dos novos equipamentos e as mudanças também irão potencializar a renda deles e da associação. Parte da destinação feita pelo MPT foi utilizada para instalação da energia solar, um sistema que permitiu uma economia substancial de recurso. Então, esse é um exemplo típico de um Brasil que está dando certo”, concluiu Paulo Germano.

“Oásis no Sertão”: a riqueza que vem de frutas, parcerias e da força da comunidade

Uma estrada de terra nos leva ao Sítio Coxos, localizado no distrito de Boqueirão, área rural do município de Cajazeiras, distante 474 quilômetros da Capital João Pessoa. A paisagem seca no caminho retrata um cenário típico de uma região do Sertão nordestino. Mas, ao redor da Associação dos Produtores Rurais de Boqueirão, a paisagem muda e logo se percebe um imenso verde, um verdadeiro ‘oásis no Sertão’. Há riqueza nas inúmeras mangueiras, goiabeiras e, principalmente, nas cajazeiras, árvores cujo fruto é o cajá e que deu origem ao nome do município de Cajazeiras, um dos maiores do Sertão da Paraíba (com 63 mil habitantes IBGE/Censo2022). Os painéis solares instalados no telhado da Associação representam esperança para um povo forte, que resiste às dificuldades.

“Começaram do nada, desacreditados. Muitas pessoas diziam que essa Associação não ia pra frente, mas graças a Deus e a essas parcerias, estamos aqui para agradecer”, comemorou o agricultor Francisco Vieira, 73, que também fornece frutas para a Associação.

“A Associação iniciou com oito famílias e hoje está com 26 associados. Na produção direta, temos seis pessoas trabalhando. Indiretamente, tem em torno de 20 pessoas prestando serviços, como diarista, fazendo frete. E famílias beneficiadas hoje com a venda de frutas – porque a gente absorve a produção da região – já são em torno de 80 famílias”, informou o presidente da Associação, José da Silva.

A primeira inauguração aconteceu na Associação dos Produtores Rurais de Boqueirão, com a presença de associados e produtores rurais de comunidades próximas. Houve o descerramento da placa pelo procurador do MPT Paulo Germano e representantes do Instituto IMJOB. Em seguida, o procurador conheceu o processo de produção das polpas de frutas e o funcionamento dos equipamentos na Associação, que vendeu sua produção este ano para a merenda escolar do Estado e municípios e, ainda, para instituições. Mas poderá futuramente passar a vender também para atacadistas e supermercados.

“Os novos equipamentos da Associação são justamente para otimizar essa produção. De que forma: eles têm uma ‘envasadora’, que antes era tudo feito manualmente. A embalagem das polpas de frutas era feita de forma manual. A partir da aquisição desse maquinário, vai produzindo mais e de forma automatizada. Aumenta a produtividade e tem outro detalhe: antes, eles produziam tamanho maior porque eles já forneciam para as creches municipais. A partir de agora, como a embalagem é menor, eles vão poder comercializar em atacadistas, supermercados, lanchonetes da cidade. Ou seja, também vai ampliar essa parte de vendas deles”, explicou a professora Pavlova Cavalcanti, que apresentou ao MPT o projeto de melhoria da Associação e criação do Laboratório da Caatinga.

“Destinações são fundamentais porque é uma região muito carente”, diz professora

“Essas destinações feitas pelo Ministério Público do Trabalho são fundamentais aqui para nossa região do Sertão, porque é uma região muito carente. As associações dependem muito de todo um apoio na parte de gestão e também de financiamento, para que possam crescer e se desenvolver. Esse projeto veio melhorar não só a associação e sim toda a região em torno da associação, aqui do Sítio Coxos, em Boqueirão”, pontuou a professora Pavlova Cavalcanti.

Ela explicou que a primeira etapa do projeto contempla todo o maquinário, que vai otimizar a produção das polpas de frutas e a segunda etapa é a parte de aproveitamento dos caroços. “No caso especificamente desse projeto, do cajá, que é o fruto que eles mais produzem aqui na região. Inclusive a professora Samara, coordenadora do Laboratório, já fez a farinha, mas a proposta é fazer o farelo, porque eles têm muitos animais aqui de pequeno porte e eles jogavam esses resíduos próximos aos sítios. Isso estava acabando com o solo. A partir do momento que será coletado esses resíduos e transformados em farelo, vamos ter um meio ambiente mais saudável e sustentável, um olhar também desse projeto em relação ao meio ambiente”, destacou Pavlova Cavalcanti.

Laboratório da Caatinga: “União do campo com a ciência”

Outra etapa do projeto apoiado pelo MPT na Paraíba é que, após as pesquisas desenvolvidas no “Laboratório de Produtos Naturais da Caatinga”, todo o conhecimento será multiplicado e repassado para os produtores rurais das comunidades envolvidas na produção de frutas. “Um dos papéis do projeto é essa união, essa parceria que existe do campo com a ciência para que, com isso, haja uma propagação maior aos demais produtores da região”, ressaltou a professora Pavlova Cavalcanti.

“O apoio do MPT é indescritível porque nos permitiu a aquisição de equipamentos de escala científica, para que possamos trabalhar com os resíduos obtidos na Associação de polpa de frutas e esses resíduos vão voltar para a comunidade em forma de produtos. Então, esses equipamentos são de alto custo e de segurança científica, pra gente devolver um produto e alimentos seguros para a comunidade”, ressaltou a professora e bióloga Samara Alves Brito, doutora em Ciências Farmacêuticas pela UFPE.

Enxaguante bucal à base de cajá

Entre as pesquisas em andamento no laboratório está um estudo para o desenvolvimento de um enxaguante bucal a partir dos princípios ativos do cajá e também a produção de um canudo comestível que, depois de utilizado, não será descartado degradando o meio ambiente. “A planta será coletada nos sítios da região de Boqueirão, em Cajazeiras. Em seguida, serão extraídos, separadamente, óleos essenciais de diferentes partes da planta. Por meio dos óleos essenciais, será avaliada a capacidade antimicrobiana contra microrganismos que causam doenças bucais para um possível desenvolvimento de enxaguante bucal a partir dos princípios ativos do cajá”, explicou a bióloga Samara Alves.

“Inicialmente, vamos utilizar os resíduos do cajá para aumentar o valor nutricional de alimentos tradicionais, como farinha para bolo. Já fizemos estudos prévios e esses resíduos são ricos em macronutrientes. Então, deixa o alimento mais nutritivo e saboroso. Alimentos mais nutritivos são capazes de prevenir algumas doenças. Então, se temos uma comunidade consumindo alimento enriquecido, muitas doenças poderão ser evitadas. Vamos levar para a comunidade um alimento seguro, nutritivo, feito com material que eles iriam jogar fora de forma incorreta. Isso também é de grande impacto”, concluiu a professora.

COM INFORMAÇÕES DO MPT-PB





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