A revolução do futebol feminino passa também pelas treinadoras – 17/11/2023 – Marina Izidro

A revolução do futebol feminino passa também pelas treinadoras – 17/11/2023 – Marina Izidro


Você conhece Emma Hayes? Talvez não. Mas saiba que a treinadora do time feminino do Chelsea é parte da geração de técnicas que estão ajudando a revolucionar a modalidade. Ela será a nova comandante da seleção feminina dos Estados Unidos, tetracampeã mundial. O anúncio da contratação levantou o debate: por que ainda há poucas profissionais como ela no futebol?

Hayes chegou ao Chelsea em 2012, período fundamental para o desenvolvimento do futebol feminino inglês. Já contei aqui que um momento da virada foi nos Jogos Olímpicos de Londres, quando um Grã-Bretanha x Brasil diante de 70 mil pessoas, em Wembley, mostrou o potencial da modalidade. Vieram investimentos, patrocínio, títulos. A Women’s Super League (WSL), novo formato da primeira divisão, estava começando. O sucesso da WSL e da seleção catapultaram a popularidade do futebol entre as mulheres.

Hayes é parte integrante disso. Conquistou 13 grandes títulos com o Chelsea, incluindo seis da WSL. Suas atletas crescem no clube e brilham na seleção. Ela não tem medo de se posicionar e sua opinião é respeitada também como comentarista de jogos no masculino. Mantém um profissionalismo inabalável. Quando perdeu um dos filhos gêmeos, ainda durante a gravidez, só contou para as jogadoras um mês depois, quando venceram a Copa da Inglaterra. Harry nasceu dias depois. Hayes diz que o filho sabe que o futebol deixa a mamãe longe, como no aniversário dele de três anos, um dia depois da final da Liga dos Campeões em que o Chelsea perdeu para o Barcelona –única grande conquista que não tem pelo clube.

Quando assumir a seleção americana, ao fim da temporada inglesa, em maio, será a treinadora de futebol mais bem paga do planeta. O salário de US$ 1,6 milhão por ano (quase R$ 8 milhões), segundo a imprensa inglesa, será três vezes o do ex-técnico Vlatko Andonovski, demitido depois da eliminação precoce nas oitavas de final na Copa do Mundo deste ano. Um marco que pode influenciar melhores contratos para outras treinadoras.

Hayes e Sarina Wiegman, campeã da Eurocopa e finalista mundial no comando da seleção da Inglaterra, lideram o grupo de treinadoras mais importantes do mundo. Há quem defenda que Wiegman assuma a equipe masculina no futuro. A holandesa disse que quando era adolescente não havia técnicas mulheres em quem se espelhar. Hoje é exemplo.

Ao mesmo tempo, o sucesso de ambas mostra a distância entre o espaço ocupado por homens e mulheres no cargo. Na WSL, cinco de 12 treinadores são do sexo feminino. Apenas 12 das 32 seleções da Copa do Mundo feminina eram comandadas por mulheres.

Acredito que faça parte da jornada de crescimento do futebol feminino. Naturalmente, homens são técnicos há mais tempo.

Felizmente, há boas iniciativas na Europa, como investimento de federações em programas de formação de treinadoras. Atletas estão mais conscientes de que podem buscar cargos técnicos ao se aposentarem.

Nesta semana, a ex-jogadora Marie-Louise Eta se tornou assistente-técnica do Union Berlin, fato inédito para uma mulher na Bundesliga. Na Inglaterra, Lydia Bedford comanda o Brentford sub-18 masculino.

Jonas Eidevall, técnico do Arsenal feminino, questionou: “Temos primeiras-ministras, mas não uma mulher treinando na Premier League. Por que? Não existe razão alguma para isso”.

Tomara que seja questão de tempo.

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